quinta-feira, 26 de abril de 2012

Dia Nacional de Paralisação

Ontem passei despercebida e só reparei que estávamos em greve quando cheguei na facul e não tinha ninguém, foi quando uma placa enorme me comunicava lá na frente do muro "Dia de paralisação Nacional". Em vez de voltar para casa, me faltou forças aceitar a falta daquele encontro, e logo ali na frente sentei a mesa do bar...




Enquanto para muitos parecia algo insignificante, "ah, logo passa. Amanhã volta", e outros nem comemorava, mas também não reclamava. Para mim que tive uns dias longe estudando para outros encontros, parecia uma eternidade.
Tive a sorte de encontrar uns amigos, e poder acompanhar naquele momento minhas idéias junto às suas, e não morrer com meus pensamentos tristes. Já que mais sentia um vazio enorme por não ter tido aula.
Percebi que tenho a sorte de amigos que pensam como eu nesse aspecto e em até outros, e ali no bar, mesmo que não fizesse tanto sentido para o meu pai que me ligava naquele momento, escolher estar ali em vez de casa, lá encontramos uma alternativa de produzir conhecimento...

Entre tantos temas que levantávamos a todo instante, um dos que mais mexeu comigo foi o questionamento entre sabedoria x inteligência, o que entre algumas sugestões de reflexão do que sabíamos sobre o que diferenciava esses termos, sem ao menos tentar seguir um dicionário em sua origem... Conseguimos chegar a um consenso e ainda todos se emocionaram quando o professor Alan compartilhava sua experiência, relatando da emoção em ter ensinado um senhor a escrever seu próprio nome. 
Vê aquele homem forte e cheio de argumentos chorando emocionado numa turma de amigos, traduziu todo sentido e prazer em ser professor para ele, que parecia caber como uma luva àquele momento.


 Mesmo estando maravilhoso aquele encontro, já ficava tarde para pegar o ônibus, por isso tive que me adiantar... 

 

Foi quando comecei a escrever o texto de hoje no caminho de casa e nem tinha certeza de que a noite ainda me reservava mais emoções...


Chegando na integração, quase vazia, por falta de estudantes  também, apesar de tarde. 
Um garoto pequeno sentou ao meu lado, fedia, mas era bonito, e tinha um olhar forte.
Me perguntava dos destinos dos ônibus, e aos poucos fui percebendo que todos tinham medo daquele garoto que se defendia com frases feitas, e uma voz grossa quando se sentia ameaçado. 
- "Ei, esse ônibus, vai pra onde?... E esse? E...?", parei de escrever, e o sugeri que me dissesse seu destino, e ele não me respondeu. Disse que ficaria mais fácil de ajudá-lo, mas não sabia como convencê-lo...
Aos poucos ia percebendo os seus mistérios e espertezas... Extremamente inteligente, mas não sábio pensava, liguei de imediato ao que escrevia sobre a paralisação Nacional, e via na minha frente aqueles olhos de alguém desprotegido...


Depois de mais alguns ônibus "errados", ele me perguntou para onde eu iria, fiquei um pouco receosa, mas ainda assim disse, sentido a praia do Cabo Branco, completei... "Preciso saber para onde vai que fica mais fácil de ajudar"... Parecia ainda não ser suficiente para ele acreditar em mim. Foi quando percebi que podia duvidar no que eu mesmo queria passar. Tamanha confiança... ¬¬
O ônibus chegou, ele ia ficar sozinho e sem respostas, e eu então falei que ia à praia naquele ônibus, então ele topou subir.
Para minha surpresa o motorista tentou enfrentá-lo e afirmou que ele pertencia a "al-quaida", não aquela de fundamentação islâmica, mas a uma turma de jovens e crianças que se organizam para enfrentar o mundo como "bravos lutadores", criando a sua própria justiça.
Fiquei um pouco preocupada em entrar naquele ônibus, mas não ia perder de saber onde ia aquela história, e ali embarquei.


O menino logo se escondeu lá atras, em seguida próximo de mim, enquanto o motorista lhe enfrentava com um olhar seguro, e ele se escondia... Naquela tensão, senti que algo poderia acontecer. Até que o motorista deixou de enfrentá-lo e falar das "boas" que já tinha visto ele se envolver e decidiu ter uma atitude sábia, que nenhum letrado ali presente, nem seus pais talvez, ou qualquer adulto tivera a coragem ou conseguido alcançar os seus ouvidos.
Pedindo para o menino ficar visível, e ora lhe observando, disse:
"Admiro gente trabalhadora, sei que você passa as noites acordado para mostrar serviço, seja até para seu grupo ou para você mesmo, enquanto muitos marmanjos não dão um prego no sabão".
Enquanto todos do ônibus o olhavam, o garoto aceitava toda crítica como se ninguém o tivesse elogiado na vida, e em seguida, consegui vê aqueles olhos perdidos brilhar quando o motorista lhe ofereceu uma caixa de engraxate. Mas disse com uma firmeza na voz que só daria se ele prometesse não vender, e sim trabalhar e voltar a estudar.
O garoto com um sorriso desprendido que parecia ter ganho na loteria respondeu numa batida só: "QUANDO?"
Foi tudo o que ele conseguia falar, sem se mostrar fraco ou sem mostrar maior emoção, já que seus olhos já dizia TUDO. E eu me senti obrigada a mudar o texto da postagem de hoje, já que a vida é maior que apenas um texto sério e sem vida.
Então, o garoto desceu na praia e o motorista e eu, e todos ali parecia ter ganho o dia só com aqueles olhos esperançosos e menos pesados que agora descia do ônibus sem pedir ao menos obrigada, mas que tinha preenchido todo o ônibus de gratidão.
  

E antes que todos não entendam o porque que parei com a paralisação Nacional. É que mesmo que o nosso país não tenha tido um bom começo de formação, pois somos fruto de uma colonização de exploração. A gente não precisa estar presa a isto, que se deu de pessoas "inteligentes" por acumulo de letramento e bens materiais, mas ser mais sensível a ponto de olhar e perceber que o buraco é ainda maior que o nosso próprio umbigo.



E escrever sobre isso foi mais que um prazer, me senti obrigada a compartilhar, que como aquele jovem, muitos outros não parecem ter outra opção, não sabe nem o porque que estão ali. Não escolheram ser pobres e viver num país que em vez de cuidar da raiz do problema, procura tapar o sol com a peneira, já depois da "merda" feita, encontrar uma solução.
Por isso, não por mim, mas pela educação do país, pelos que não sabem escrever ou nem o porque de como se proteger, é que enfim respiro a necessidade de então paralisar, não por nada, mas para pensar e refletir sobre este ato, e com o desejo que várias outras pessoas também prefiram agir com sabedoria, que é tão mais importante que acúmulos de fórmulas exatas. Mas se mesmo assim você ainda não achou diferença alguma entre essas duas palavras, sabedoria x inteligencia, e achou que o texto é meio "viajoso". Não tenha medo, todos os dias estamos aprendendo.

2 comentários:

  1. Como pode não ter tido comentários este texto? tem que ser bastante divulgado, as coisas não mudam porque ninguém faz nada para que mude, divulgar este texto seria um grão de areia em direção ao sonho de todos.

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    1. Ow que lindo minha flôr, você é demais! Obrigada pelo carinho, por ler meu blog, e por gostar de meus textos =)

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